O Rio Grande do Sul, atualmente a região mais vulnerável do Brasil a eventos climáticos extremos, tem suas recentes adversidades reconvertidas em aprendizados estratégicos que devem fundamentar as propostas brasileiras na COP30, marcada para novembro de 2025 em Belém.
Em evento promovido pela Embrapa, em Porto Alegre, a cientista Thelma Krug, coordenadora do Conselho Científico sobre o Clima ligado à presidência da COP30, destacou que eventos como a enchente devastadora de 2024 e uma sequência de quatro anos de estiagem desde 2022 servem como alarmes urgentes. Esses fenômenos já são considerados certezas científicas sobre a intensificação dos extremos de calor e chuva — ainda que fatores naturais contribuam, o papel humano é inegável e amplificado nos alertas científicos. Projeções indicam um aumento de até 25% nas precipitações no Sul e Sudeste até 2100, enquanto o Nordeste deverá enfrentar redução de até 22%, com graves impactos em abastecimento, transporte, telecomunicações e saúde pública.
No campo da saúde, o deputado Pepe Vargas, presidente da Assembleia Legislativa do RS, relacionou o salto de casos de dengue — de 34,8 mil em 2023 para 173,5 mil em 2024 — diretamente às intempéries intensificadas pela mudança climática.
A água, alertou Krug, se torna crítica não apenas na quantidade, mas na qualidade, sendo setor como saneamento de alta preocupação — especialmente em regiões que receberão a COP30. “Não sei o quanto afeta aqui (Porto Alegre)… acredito que não seja tanto quanto o que podemos ter em Belém, que vai expor uma situação de vulnerabilidade muito grande.”
O setor agropecuário também está no foco das recomendações: o calor extremo compromete diretamente a qualidade da carne e do leite. “Nosso gado não é confinado. Ele morre de calor. A carne não será boa. O leite também não. Comecem a plantar umas arvorezinhas”, aconselhou Krug. A cientista reforçou a necessidade de diversificar culturas e apostar em espécies mais resistentes ao calor, utilizando a infraestrutura e o conhecimento da Embrapa.
Também foram relembrados os desafios logísticos enfrentados durante a enchente — que quase interromperam o abastecimento de grãos no país — e a simbólica história do cavalo Caramelo, resgatado após ficar por quatro dias na cobertura de um galpão, que tornou-se símbolo da resiliência gaúcha.
Em paralelo, Pepe Vargas ressaltou que, enquanto a irrigação ganha atenção, os investimentos deveriam se concentrar na conservação do solo. Solo compactado exige mais do que soluções hidráulicas isoladas. O parlamentar defendeu práticas conservacionistas e a retomada da Política Estadual de Conservação de Solo e Água, vigente de 2015 a 2019, que agora deverá ser reativada por meio de acordos entre entidades e governo.
Entre os programas em curso, destaca-se o incentivo à irrigação: a Seapi oferece suporte de 20% do investimento necessário (até R$ 100 mil por produtor), com meta de aumentar em 33% as áreas irrigadas de milho, soja e outras culturas secas, expandindo em 100 mil hectares em quatro anos. A recuperação socioambiental da agricultura familiar pelo programa Terra Forte também figura entre as estratégias prioritárias, alinhadas à agenda de sustentabilidade da Assembleia para 2025.



