“Se continuarmos agindo individualmente, vamos melhorar nosso negócio… mas qual legado queremos deixar para nossa região?”

O  “Conversa de Valor” recebe nesta edição uma convidada que é referência quando o tema é inovação, empreendedorismo e impacto positivo. Márcia Capellari , Presidente-Executiva e uma das fundadoras do Instituto Aliança Empresarial, construiu uma trajetória marcada pela combinação de ciência, educação e liderança. Cientista da Computação, Doutora em Administração, Mestre em Educação e especialista em projetos de inovação, ela também integra importantes conselhos, como o Instituto UbyAgro, FAPERGS, ICE/Coalizão pelo Impacto, além de atuar como vice-presidente do Conselho da Semente Negócios.

Docente e pesquisadora da Atitus Educação, Márcia esteve à frente da criação de grupos em fundos de investimentos e Institutos de Ciência e Tecnologia (ICTs). É ainda uma das fundadoras da LíderA – Associação de Mulheres Empreendedoras, investidora e articuladora de recursos para negócios inovadores, com participação no fundo Sororitê/SP.

ValorPF – O Instituto Aliança Empresarial tem se destacado em iniciativas de fomento à economia na região e estado. Quais projetos recentes você destacaria como mais relevantes para o desenvolvimento de Passo Fundo e da região Norte do RS?

Márcia Capellari (MC) – Nos últimos anos, consolidamos o Instituto Aliança Empresarial como um verdadeiro catalisador que por meio da colaboração empresarial vem fomentando o desenvolvimento local e regional. Eu destacaria três projetos que têm sido transformadores e que são resultado de esforços entre as pessoas no ecossistema com poder público, pesquisa e comunidade.

O primeiro é a regeneração urbana em um território no centro da cidade que possui a representação histórica da pujança econômica da região desde 1910 marcadas pela triticultura com a soja, milho e trigo. Nesse ambiente a revitalização do Moinho de 1930, vindo da Inglaterra, dá espaço para um ambiente chamado de Hub de Inovação, que em apenas 1 ano de residência física já recebeu mais de 56 mil pessoas. Ele se tornou um espaço onde as pessoas, empresas, instituições de pesquisa e sociedade se encontram para gerar negócios, compartilhar conhecimento e descobrir novas soluções para gerar maior impacto positivo e riqueza para a região.

O segundo é o apoio e investimento das empresas desde o início na construção de uma lei para inovação que juntamente com o legislativo e executivo deu origem ao atual Pacto pela Inovação – batizado como Passo para o Futuro, em que o Instituto liderou e se comprometeu com 2 projetos estratégicos, sendo eles, uma é o Eleva – aceleradora de negócios inovadores que possui um caminho orientado para que as startups e empresas com negócios inovadores e escaláveis possam se preparar e atingir maior grau de maturidade para receber investimentos do próprio fundo de investimentos do Instituto Aliança Empresarial com Bossa Invest. O segundo projeto é a entrega de um projeto para expansão a partir do Hub Aliança para a transformação e regeneração do território em um Distrito da Inovação que contempla a criação de uma rua modelo, com tecnologias urbana para melhorar a vida das pessoas, gerar maior segurança e atração e retenção de negócios inovadores para a cidade. 

E, por fim, os projetos de impacto social, que seguem uma jornada de sustentabilidade e inovação com foco em ESG para gerar impacto positivo a partir especialmente da diminuição do carbono criando novos mercados e oportunidades a partir de resíduos têxteis como é o exemplo de um programa em que o Instituto participou com voluntariado corporativo e mentorias executado pela semente negócios promovido pela Be8, em parceria com Atitus Educação, UPF, Escola das Profissões do município, Senac, Sebrae e Sicredi, o Amplitude Moda Circular, que une empreendedorismo feminino, economia criativa e sustentabilidade, mostrando que é possível gerar renda e inclusão social a partir de resíduos têxteis. São iniciativas que provam e conscientizam as pessoas de Passo Fundo e do Norte do RS mostrando na prática que existe vocação e espaço para acelerar a transformação dos negócios e gerar impacto na matriz econômica se trabalharmos juntos.

ValorPF – Como o Instituto tem trabalhado para aproximar empresas, instituições e poder público, criando um ambiente mais favorável à inovação e à atração de investimentos para a região?

Márcia Capellari (MC) O nosso trabalho é muito baseado em conexões de valor. Não acreditamos em inovação isolada. A medida em que o grupo de lideranças observa os primeiros resultados, vamos ganhando maturidade e confiança. Por isso, criamos uma governança com conselho dos fundadores e rituais que reúnem hoje mais de 60 empresas.

Um dos principais problemas que identificamos no início é exatamente o contexto de onde estamos inseridos. Somos uma das cidades com 200 a 500 mil habitantes no Brasil que, geralmente, são cidades médias com pouca história de colaboração empresarial para gerar um ambiente de inovação e formação com retenção de talentos. 

Infelizmente, é normal e corriqueiro ver os melhores talentos saírem de seus locais paras capitais e, muitas vezes, até fora do País em busca de oportunidades e ambientes estruturados. Alguns exemplos são o Cubo em SP, o Instituto Caldeira em POA, Porto Digital no Recife, Acate em SC. Esse tema é um desafio permanente nessas regiões do interior e, em 2019, era nossa realidade.

No nosso caso, a solução foi criar o Instituto com um Hub de inovação sustentável dando foco em fortalecer a vocação da região mas em especial nas alianças humanas para influenciar a descentralização econômica do país, pois em cidades médias como Passo Fundo e região encontramos melhores qualidades de vida, mas a maior parte delas não tem um ambiente inovador que permita acolher os talentos, em especial mais jovens, para que possam se desenvolver, criar e testar novas soluções que os desafiem. Por esse motivo, batizamos o Hub Aliança de “Casa da Inovação do Norte Gaúcho”. Um resgate simbólico, histórico e que nos aproxima das nossas raízes para aprender com as experiências do passado para resolver problemas atuais e deixar um terreno fértil para o futuro. É possível ver nas cicatrizes do empreendimento moinho o quanto a inovação e a sustentabilidade já existiam com muito menos acesso às ferramentas como as tecnologias digitais.

O nascimento dessa aliança veio ao encontro de buscar pontos de conexões com propósito e geração de valor para a região. Uma das principais reflexões eram: “Se continuarmos agindo individualmente, vamos melhorar o nosso negócio… mas qual legado vamos deixar? Para que nossos filhos possam ter um ambiente de livre escolha, para testar, criar e transformar? Que os talentos possam ter a opção de ficar aqui e não precisem ir para fora do país para prosperar? Qual marca queremos para sociedade?”

Foi aí que entendemos: o problema não era apenas econômico. Era relacional, cultural, com feridas históricas, inclusive como povo em um país que foi colonizado. Faltava aprendermos sobre consciência e inteligência coletiva. Faltava espaço para escuta e para colaboração genuína e um ponto de conexão que gerasse um propósito comum com identidade e falar sobre isso em um ambiente seguro foi o que fortaleceu os vínculos de confiança.

É desse DNA, de partir da confiança e da cooperação que buscamos conectar e articular diferentes atores em torno de uma agenda comum: melhorar os negócios de forma sustentável e escalável, atrair investimentos, gerar novos negócios e criar condições para que talentos venham e permaneçam na região. Isso significa construir pontes — aproximar o poder público das demandas do setor produtivo, trazer universidades para aplicarem ciência na prática com os desafios reais das empresas e abrir espaço para as pessoas criarem soluções, empresas, startups e ou negócios para a nova economia.

Esse ecossistema colaborativo tem gerado resultados concretos: novas parcerias entre empresas e governo, aumento de faturamento dentro do ecossistema do Instituto Aliança Empresarial com impacto positivo na matriz econômica do estado e um posicionamento diferenciado de Passo Fundo como cidade agroinovadora e polo de desenvolvimento.

ValorPF – Você ocupa uma posição de liderança em um espaço ainda majoritariamente masculino. Quais são, na sua visão, os principais desafios e oportunidades para ampliar a presença feminina no meio empresarial?

Márcia Capellari (MC) – De fato, o ambiente empresarial em especial em algumas áreas como tecnologia e de inovação de base tecnológica ainda é predominantemente masculino. O principal desafio é quebrar estereótipos de dentro pra fora, nossas crenças pessoais inclusive como mulheres. Essa é a nossa parte. A outra parte é nas organizações e na sociedade continuar gerando oportunidades e espaço para que as mulheres que possuem as competências aderentes possam criar empresas, liderar e ocupar cadeiras de decisões com a mesma legitimidade que os homens. Por isso a importância da diversidade, pois como sociedade essa representatividade ajuda na transformação de uma cultura. Por exemplo, eu fui criada em ambiente masculino, fiz ciência da computação e fui a única mulher formada na turma em 2005 e isso me ajudou a transitar de forma mais natural nesses ambientes. Porém, eu sempre me inspirei em mulheres que me criaram e formaram a mudança, tive uma professora referência internacional de Taekondo que marcou uma fase importante na minha vida, infelizmente foi vítima de feminicídio. Também me inspirei em outras mulheres conhecidas a partir das leituras, que geraram negócios. E, ver elas liderando e criando soluções fez com que eu acreditasse que era possível eu também ser uma mulher que entrasse na tecnologia com áreas de engenharia de software. A primeira linguagem de programação foi criada por uma mulher, Ada Lovelace e depois Grace Hopper construíram uma linguagem que até hoje influencia a tecnologia com uma lógica que se estendeu também para o mundo dos negócios.  

Mas eu gosto de olhar para as oportunidades: cada vez mais vemos empresas e instituições reconhecendo o valor da diversidade não apenas de gênero, mas de culturas, etnias e conhecimentos. E os dados não mentem, abaixo descobertas recentes:

  1. De acordo com uma pesquisa publicada na Women in the Workplace 2024, as organizações que possuem representatividade em cargos de gestão possuem 25% mais chances de registrar lucratividade acima da média. 
  2. Outro estudo recente da McKinsey apontou que 55% das companhias mais diversas em gênero superam a média do setor em EBITDA, contra apenas 29% das menos diversas.
  3. Uma pesquisa global revelou que cada aumento de 20% na participação feminina na liderança resulta em 2 pontos percentuais a mais de margem de EBITDA, 2,04 p.p. a mais no CFROI e redução de 6% na relação dívida/EBITDA.
  4. Empresas que nomearam mulheres como CEOs tiveram um ganho médio de 20% no preço das ações nos 24 meses seguintes; para CFOs mulheres, o retorno esteve 6% acima da média.
  5. Segundo análise da Credit Suisse, companhias brasileiras com ao menos uma mulher no conselho tiveram ROE 4% maior do que aquelas sem representação feminina.

Tais informações mostram o quanto a participação da liderança feminina soma ao time com um olhar integrador, humano e colaborativo, que é exatamente o que o Fórum Mundial Econômico divulgou como competências essenciais para dar conta dos desafios e perpetuar os negócios.

No Instituto Aliança Empresarial, temos trabalhado para inspirar e abrir portas para que mais equidade e mulheres participem — seja por meio de projetos de empreendedorismo feminino, de lideranças jovens ou de integração com empreendedoras como, a Lídera – Associação de mulheres empreendedoras, que hoje conta com centenas de mulheres em uma rede criando negócios, e contribuindo com a economia local e regional. Os dados mostram que a presença feminina não é apenas uma questão de equidade: é um fator financeiro decisivo para gerar inovação com impacto positivo para toda a sociedade.

Quando empresas, instituições e poder público se unem, a região cresce. Quando incluímos mulheres nesse movimento, a transformação ganha ainda mais potência para perpetuar o legado para as próximas gerações.

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