
No “Conversa de Valor” desta semana, o entrevistado é Marcos Alexandre Cittolin, advogado, mestre em Infraestrutura e Meio Ambiente e especialista em Políticas Públicas de Desenvolvimento Local e Regional. Atualmente, ele atua como conselheiro do Conselho de Administração da Be8.
Com uma trajetória marcada pela atuação pública, Cittolin foi secretário de Desenvolvimento Econômico no governo do prefeito Airton Dipp (2005-2012), período em que coordenou planos estratégicos que ajudaram a reposicionar Passo Fundo no cenário industrial e logístico. Na entrevista, ele relembra as iniciativas que atraíram empresas como Italac, Ambev e BSBIOS (atual Be8) para a cidade, comenta os avanços em inovação e tecnologia, fala sobre o impacto dos investimentos em energias renováveis e reflete sobre o futuro do município diante da chegada de novos empreendimentos, como a usina de etanol.
ValorPF – Ao longo da sua trajetória, o senhor atuou como gestor do Parque Tecnológico da UPF e também como secretário municipal de Desenvolvimento Econômico. De que forma essas experiências moldaram sua visão sobre o desenvolvimento de Passo Fundo?
Marcos Alexandre Cittolin (MAC) – Minha inspiração e vocação para trabalhar com desenvolvimento econômico local vêm de toda a minha vida profissional e acadêmica. No mestrado, já me dediquei ao tema do desenvolvimento regional. Quando fui vereador e, posteriormente, secretário no governo Dipp, percebemos a necessidade de criar um plano estratégico para o município, que vinha perdendo investimentos importantes, como as indústrias de bebidas Brahma, Pepsi e Coca-Cola, além de já enfrentar um processo acelerado de desindustrialização nos setores de frigoríficos e curtumes.
Era preciso uma nova estratégia para reverter esse cenário. Identificamos como potencial a força do agronegócio local, cujos insumos eram exportados in natura ou industrializados em outras regiões. Assim, direcionamos esforços para atrair indústrias ligadas ao que já produzíamos: no setor de soja, veio a BSBIOS (hoje Be8); no leite, a Italac; e na cevada, a Ambev, considerando que nossa região é a maior produtora do país em um raio de 200 km.
Essas conquistas foram fruto de um trabalho coletivo do governo e resultaram em indústrias que transformaram o PIB municipal, geraram empregos de qualidade, aumentaram a renda média e consolidaram cadeias produtivas extensas.
O segundo eixo foi a logística, aproveitando a posição estratégica de Passo Fundo em relação a ferrovia, rodovia, aeroporto e proximidade com regiões de produção no RS, SC e PR. Criamos uma lei de incentivo para atrair empresas desse setor, o que hoje se comprova com a instalação de novas plataformas logísticas.
O terceiro eixo foi o conhecimento. Demos atenção especial à inovação e tecnologia, criando o Polo de Software e, com apoio de emenda parlamentar articulada pelo deputado Beto Albuquerque, captamos recursos para o Parque Científico e Tecnológico da UPF.
Esse conjunto de ações mostrou que planos estratégicos bem estruturados trazem resultados concretos. Para se ter ideia, em 2005 o orçamento municipal era de R$ 116 milhões, valor insuficiente para as demandas da cidade. Hoje, ultrapassa R$ 1,3 bilhão, reflexo direto da diversificação e do fortalecimento econômico iniciados naquele período.
ValorPF – Como sua atuação hoje na Be8 contribui para o reposicionamento estratégico da empresa e para iniciativas de desenvolvimento econômico local e regional?
MAC – Ser conselheiro da Be8 há mais de dez anos é uma honra e um aprendizado constante. A Be8 é o tipo de empresa que toda economia local sonha em ter: conecta-se ao setor primário, fortalece a produção agrícola, agrega valor com energia renovável e gera empregos altamente qualificados.
A empresa vai além do biodiesel, expandindo sua atuação para o etanol e outros combustíveis sustentáveis. O Bivant, desenvolvido em Passo Fundo, é um exemplo: substitui integralmente o diesel fóssil sem necessidade de adaptação nos motores e tem potencial para alcançar o mercado global.
A presença da Be8 projeta a cidade como referência em sustentabilidade e energias renováveis. Como conselheiro, minha contribuição está voltada às estratégias de negócio, sempre com o olhar de quem trabalhou no desenvolvimento econômico local e regional.
ValorPF – Com a chegada da usina de etanol e novos empreendimentos imobiliários, Passo Fundo está vivendo um período de expansão. Quais estratégias considera essenciais para garantir que esse crescimento seja sustentável e integrado aos diferentes setores da cidade?
MAC – A usina de etanol dá continuidade à estratégia iniciada em 2005, de tornar Passo Fundo uma referência em biocombustíveis e energias renováveis. Assim como a BSBIOS representou um marco na época, o etanol movimenta uma nova cadeia produtiva, especialmente de cultivares de inverno, e gera coprodutos valiosos, como o DDGS, fundamental para a alimentação animal, a exemplo do farelo de soja no biodiesel.
Isso mostra como a indústria fortalece toda a economia: do setor primário à logística, da produção de energia à geração de renda e empregos. Ao mesmo tempo, a construção civil responde a esse crescimento econômico, impulsionada pelo aumento da renda média e pela capacidade de investimento da população. Empreendimentos como o Icon ECB refletem esse movimento.
Essa trajetória começou no governo Dipp e foi consolidada pelos governos seguintes, sempre com o objetivo de fortalecer a economia, aumentar a receita pública e garantir melhores serviços à população. Hoje, o resultado é visível: maior renda, mais oportunidades e um desenvolvimento que integra setores estratégicos. É o fruto do espírito empreendedor de Passo Fundo, da força das instituições e da seriedade com que a cidade trata o tema do desenvolvimento econômico.



