
Em um momento de desafios e transformações no campo, a agricultura familiar segue mostrando sua força e importância para a economia e o abastecimento alimentar. À frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Passo Fundo, Coxilha e Mato Castelhano, Marinês Scapini Penz é uma das vozes mais ativas na defesa do setor. Agricultora, coordenadora da Regional Sindical de Passo Fundo e vice-presidente do CMDA, ela tem acompanhado de perto as dificuldades e conquistas dos produtores da região.
Nesta edição do Conversa de Valor, Marinês fala sobre o sucesso da 1ª Feira Origem do Campo, avalia o atual momento do agronegócio regional e reforça a necessidade de políticas públicas que garantam crédito, renda e condições dignas para quem vive da terra.
ValorPF: A 1ª Feira Origem do Campo foi considerada um sucesso pela participação do público e dos produtores. Na sua avaliação, quais fatores contribuíram para esse resultado e que aprendizados o Sindicato leva dessa primeira edição?
Marinês Scapini Penz: Realmente, a feira foi um sucesso. Com relação à participação do público, nós tivemos a assertiva de escolher a região do Boqueirão, um lugar que já tem grande circulação de pessoas. Isso contribuiu para que o espaço fosse bastante visitado e tivesse muita visibilidade. Passo Fundo é um povo acolhedor e, além disso, temos um grande número de pessoas que vivem aqui, né? Então, todos são consumidores também. A agricultura familiar é muito bem vista e recebida pelas pessoas. A gente procurou trazer uma diversidade de produtos de várias origens: embutidos, queijos, laticínios, bebidas, panificados, artesanato, flores, enfim, uma feira bem diversificada, para que o público pudesse encontrar uma ampla gama de produtos, todos de excelente qualidade. Os aprendizados e as parcerias foram extremamente importantes. Tivemos grandes parceiros para a realização da feira, inicialmente com a SDR — o Desenvolvimento Rural do Estado — que fez um aporte para que pudéssemos montar toda a estrutura e oferecer esse espaço aos expositores. A Emater de Passo Fundo, a Prefeitura Municipal, a ACISA e diversas secretarias também nos apoiaram. Tivemos muitos outros parceiros que foram fundamentais para que a feira alcançasse esse sucesso. Os agricultores que participaram, especialmente da região de Passo Fundo, também contribuíram muito. Tivemos produtos in natura sendo comercializados, todos de excelente qualidade. Foram vários fatores que possibilitaram esse sucesso da feira, né?
ValorPF: O agronegócio vive um momento de contrastes, com boa produtividade em algumas regiões e perdas significativas em outras, devido ao clima. Como a senhora avalia o atual cenário do agro regional e quais são hoje as principais preocupações dos produtores rurais?
MSP: Nós temos um cenário bastante complexo hoje, porque não tivemos, em relação ao clima, uma boa produção de grãos. E também não temos preço , nossos produtos não têm valor. O preço da soja está baixo, o do trigo também, que agora o pessoal está colhendo. Preço ruim. Então, é difícil isso para o agricultor, porque ele aposta, procura fazer o seu melhor da porteira para dentro, tenta comprar insumos com os menores preços, o que não é fácil, mas na hora de vender o produto, ele não tem preço. Está complicado isso aí. Outra preocupação que a gente tem hoje é o crédito. Em virtude das quatro estiagens e enchentes que tivemos nos últimos anos, o produtor se descapitalizou completamente. E hoje ele está com dificuldade de acessar crédito, porque não tem mais como honrar seus compromissos. Então, está bem complicado, e a gente vê uma grande dificuldade. Isso gera outros problemas, porque, sem conseguir acessar o crédito, ele também não consegue comprar nas empresas ou cooperativas. Sem crédito, como ele vai fazer um plantio de qualidade e investir para ter uma boa rentabilidade de produção? Então, já faz o cultivo com menor qualidade e, consequentemente, pode não ter o resultado esperado. Por isso, é importante o apoio e o investimento dos governos para os agricultores. Estamos com problema também na área do leite, com produtos entrando de outros países e o comércio varejista comprando, tendo incentivos. Nós precisamos fomentar os nossos produtores aqui. O custo de produção está elevado e o preço caiu. Por isso, estamos realizando agora, no dia 12 de novembro, um ato público em defesa dos produtores de leite, em Casca, que é uma região produtora e abrange toda a região. O objetivo é sensibilizar e elaborar documentos em nível de Estado. Estamos promovendo quatro atos, e um deles vai acontecer aqui na nossa regional, em apoio aos produtores de leite. Precisamos estar unidos para buscar alternativas para o setor primário.
ValorPF: As variações climáticas, entre longos períodos de estiagem e grandes volumes de chuva, têm impactado fortemente o campo. Que políticas públicas a senhora acredita serem essenciais para fortalecer os produtores e garantir maior segurança diante dessas condições extremas?
MSP: No meu entendimento, para fortalecer a agricultura, nós precisamos que todos os governos, desde municipal, estadual e federal, apostem na agricultura, subsidiem a agricultura, fomentem a agricultura, porque nós cada vez temos menos pessoas vivendo no campo e quem vai ficar para produzir alimentos se não for apoiado e subsidiado? Então, para a gente fomentar processos produtivos da juventude, produzir alimentos., eu acredito que algumas coisas como essa comercialização que a gente está buscando também trazer na venda direta dos produtores, melhorando o seu acesso deles a mercados que eles podem acessar de forma mais fácil. Fomentar e subsidiar novos investimentos, principalmente para jovens também, que não estão investindo, acessar, buscar acessar com mais facilidade as políticas públicas que já existem, o programa de aquisição de alimentos, realmente trazer que os municípios tragam mais tecnicos para auxiliar os agricultores principalmente a agricultura familiar para ela diversificar as propriedades para que elas não fiquem na dependência de uma cultura ou uma atividade apenas. E fomentar para que esse povo realmente permaneça no campo. Mas para ele permanecer no campo, precisa ter qualidade de vida e ter renda. Então, para isso, precisa de um conjunto de ações para que isso fomente essas pessoas que têm vocação e que têm amor ao campo. Porque se todo mundo sair do campo e vier para a cidade, quem é que vai produzir os alimentos? Então, são questões importantíssimas. Outra questão que eu vejo, facilitar os pagamentos por serviços ambientais, também é uma coisa, nós estamos lá no campo cuidando das nossas áreas de preservação permanente, estamos lá preservando, é justo que nós recebamos por isso. Então, iniciativas que venham somar isso, auxiliar os agricultores nesse pagamento por serviços ambientais, por estarem cuidando. Então, são diversas ações que podem ser realizadas, que a gente está trabalhando em cima disso para que se concretize, buscando, como disse, a diversificação das propriedades e facilitando o acesso, porque existem muitas barreiras, muita dificuldade, às vezes, de inspeções e licenças, que dificultam a pessoa quando ela quer empreender. Então, acho que tem que seguir o que é certo, correto, mas não pode barrar as pessoas que estão buscando uma nova alternativa, um novo empreendimento. Então, precisa realmente fomentar a cadeia produtiva, os novos empreendimentos no campo, realmente auxiliar os agricultores nesse sentido. Acho que esses são os papéis dos poderes, tanto municipal, poderes públicos, municipal, estadual e federal, é fomentar realmente essas cadeias, novas cadeias produtivas e diversificação das propriedades.
Aí seria subsídio de juros a projetos produtivos, apoio, criação de um fundo que fomentasse esses projetos produtivos, que auxiliasse, porque o juro também hoje está muito alto, então fazer um investimento, você tem um juro muito alto, então precisava ter um aporte, apoio nesse sentido.



