
O Conversa de Valor desta semana recebe Nei César Mânica, presidente da Cotrijal, líder que ajudou a transformar uma cooperativa regional em referência nacional de gestão, inovação e desenvolvimento do agronegócio.
Com mais de 30 anos de atuação na Cotrijal e uma década à frente da presidência, Mânica construiu uma trajetória marcada por visão de futuro, defesa do produtor rural e aposta permanente em tecnologia, eficiência e profissionalismo. Idealizador da Expodireto Cotrijal, feira que projetou o Rio Grande do Sul e o Brasil para o mundo, ele fala sobre decisões difíceis, cooperativismo, políticas públicas, crédito rural e os desafios de manter o produtor no campo em um cenário cada vez mais complexo.
Uma conversa sobre liderança, legado e o papel estratégico do cooperativismo na sustentação do agronegócio brasileiro.
ValorPF – A Expodireto Cotrijal completou 25 anos consolidada como uma das maiores feiras do agronegócio brasileiro. Olhando para trás, qual foi a decisão mais difícil — e talvez mais arriscada — que o senhor tomou para transformar a feira em um evento de alcance internacional?
Nei César Mânica . (NCM) – Bem, quando nós idealizamos lá em 2000, era um sonho de fazer uma exposição diferente das várias exposições que existiam no Estado e até no Brasil. E a gente, olhando os modelos, criamos uma exposição em cima de inovação, tecnologia e importância do agronegócio. Então foi um desafio inicial que muitos não acreditavam, mas com o passar do primeiro, segundo ano, uma feira estadual, ela virou nacional, virou Mercosul e há 16 anos ela é internacional. Então é uma feira que está focada em cima de negócio da tecnologia. Então hoje passa mais de 70 países dos cinco continentes durante os cinco dias, faz mais de 10 anos que acontece isso. Então isso aí trouxe um desenvolvimento muito grande regional, as empresas cresceram, hoje o Brasil é o maior propulsor em tecnologia do mundo, avançou muito rapidamente, não só pela Expo Direto, sim pela tecnologia que vem no Brasil, mas a Expo Direto é uma grande responsável, porque a nossa região no estado do Rio Grande do Sul, ela tem uma produtividade muito maior do que o próprio Rio Grande do Sul, a média e também do Brasil, e a Expo Direto contribuiu muito para isso.
ValoPF – O cooperativismo voltou ao centro do debate como alternativa de força econômica e social para o produtor rural. Na sua visão, o que as cooperativas precisam fazer hoje para continuar relevantes em um agro cada vez mais tecnológico, competitivo e pressionado por questões climáticas e financeiras?
NCM – Com certeza, se você olhar hoje, a ONU denominou 2025 como ONU Internacional da Cooperativismo porque pelo que ela representa em termos de associação, de integração tanto para o pequeno, médio e para o grande produtor. Hoje, além da cooperativa ser uma cooperativa que tem que fazer o social e ela faz o econômico. E em cima dessa visão de agregar valor, prestar serviço, nós, a Cotrijal e a cooperativa Montoro, estamos passando para a industrialização, que é a agregação de valor, para que o produtor possa ter mais rentabilidade, nós poder ajudar o Estado em termos de restituição de impostos, menos tráfego nas estradas, mais industrialização, mais agregação em termos de proteínas, que é o que realmente traz a sustentação de todo o agronegócio no Brasil.
ValorPF – O senhor tem defendido publicamente políticas de apoio ao produtor, como o alongamento de dívidas e maior previsibilidade no crédito rural. Onde o Estado ainda falha em compreender a realidade do campo e que mudanças estruturais seriam urgentes para garantir sustentabilidade ao produtor brasileiro?
NCM – Isso realmente, eu posso dizer que é desgastante e até é triste de a gente dizer que a economia se desenvolve em cima do setor primário. E o governo federal, infelizmente, não atendeu tudo àquela necessidade que o produtor precisava. Alguma coisa veio sim, mas muito aquém das necessidades. O produtor não está pedindo perdão de dívida, está pedindo um alongamento a dívida para poder pagar. Então, estamos ainda com muitos produtores com dificuldades, se continua a luta, mas infelizmente não conseguimos que o governo federal entendesse a necessidade desse alongamento para dar o cuidado para o produtor ficar no campo. Mas a vida continua, nós temos ajudado dentro da possibilidade e eu espero que agora, com uma perspectiva de uma boa safra, comece a reverter a situação do nosso estado do Rio Grande do Sul.



