“É hora de unir talentos e forças para colocar Passo Fundo no mapa da inovação do Brasil”

Eduardo Capellari é sócio-fundador da Atitus Educação e da Rufus Ventures. Formado e mestre em Direito, é uma das vozes mais ativas no debate sobre o futuro de Passo Fundo e do Norte gaúcho. Também atua como vice-presidente do Transforma RS.
Nesta edição da Conversa de Valor, Capellari fala sobre o papel estratégico das instituições de ensino superior no desenvolvimento regional e propõe caminhos para que Passo Fundo se consolide como um verdadeiro polo de conhecimento, empreendedorismo e inovação.



ValorPF – De que forma a Atitus tem contribuído, na prática, para impulsionar o desenvolvimento econômico de Passo Fundo e da região?

Eduardo Capellari (EC)-  No meu entendimento, uma instituição de ensino superior precisa funcionar como um espaço de reflexão e sistematização do conhecimento em prol da sociedade. Especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento econômico, é fundamental que a instituição atue na organização dos principais agentes, contribuindo para a formulação de estratégias de desenvolvimento regional.

Acredito que a Atitus cumpre muito bem esse papel, participando ativamente do Instituto Aliança Empresarial e mantendo interlocução constante com outros agentes econômicos de Passo Fundo e região. Esse, a meu ver, é seu primeiro papel.

O segundo papel de uma instituição de ensino superior, como universidades e faculdades, é o de formar talentos: pessoas qualificadas e alinhadas aos desafios que a sociedade enfrenta em seu contexto histórico. Frequentemente falamos, de forma genérica, sobre a importância de formar pessoas com qualidade. No entanto, a grande questão é: que tipo de competências e habilidades a sociedade do presente, e do futuro, está demandando? E que tipo de formação estamos promovendo?

Se estivermos formando pessoas com competências e habilidades que não são exigidas pelo mercado, não estaremos contribuindo com o desenvolvimento econômico da região. Nesse sentido, acredito que a Atitus tem, na prática, contribuído de forma significativa para o desenvolvimento regional, ao focar na formação de lideranças e profissionais qualificados, com capacidade de empreender, inovar, criar negócios e enfrentar os desafios contemporâneos, que já não são os mesmos do passado. Acredito que esses são os dois papéis que estamos cumprindo com excelência.

ValorPF – Quais são os principais desafios e oportunidades que você enxerga para que Passo Fundo se consolide como um polo de conhecimento, empreendedorismo e tecnologia no Sul do Brasil?

EC – O primeiro ponto que precisamos entender é que a relação entre universidades e empresas, historicamente, é marcada por uma desconfiança mútua. As empresas, muitas vezes, desconfiam da velocidade das instituições de ensino e dos critérios que elas utilizam para a escolha de temas, critérios que, por vezes, são muito endógenos às universidades e não dialogam diretamente com os desafios enfrentados pelo setor produtivo. Por outro lado, as universidades também desconfiam das empresas, que naturalmente estão focadas em resultados financeiros. Essa desconfiança mútua é uma realidade persistente.

O que acredito que estamos fazendo bem na Atitus é justamente enfrentar esse desafio. Para isso, é fundamental criar ambientes e estruturas de governança que aproximem esses setores, promovendo diálogos permanentes e construindo, com base na confiança, projetos estratégicos de futuro.

Como resolver esse impasse? A criação do Instituto Aliança Empresarial é uma das iniciativas que responde a essa demanda. Em conjunto com outras empresas, criamos um instituto que reúne os principais agentes econômicos de Passo Fundo, promovendo um espaço de troca de ideias e de construção de projetos estratégicos,  algo que seria difícil de viabilizar sem essa estrutura.

Outra iniciativa importante é o protagonismo do poder público de Passo Fundo, especialmente com a criação do Pacto da Inovação. Através dele, foi estruturado um conselho estratégico e uma governança que também aproxima universidades, empresas e o governo municipal, permitindo a construção de um portfólio de projetos com ações conjuntas de médio e longo prazo.

Portanto, essa aproximação entre academia, setor produtivo e poder público sempre dependerá de três fatores essenciais: um ambiente de confiança, lideranças com capacidade de articulação e a consolidação de um portfólio de projetos concretos, para que não fiquemos apenas nas discussões abstratas.

Essa é a forma de avançar, e esse movimento já está em curso em Passo Fundo. No entanto, é claro que ainda precisamos intensificar essa aproximação e desenvolver projetos cada vez mais relevantes, construídos e assinados conjuntamente.

ValorPF – Quais são os principais desafios e oportunidades que você enxerga para que Passo Fundo se consolide como um polo de conhecimento, empreendedorismo e tecnologia no Sul do Brasil?

EC – Em relação a essa terceira questão, acredito que precisamos, inicialmente, responder: quais são, efetivamente, as vocações econômicas de Passo Fundo? Se trabalharmos de forma abstrata, sem olhar para os dados do PIB e sem compreender o que, de fato, constitui a riqueza da cidade, não conseguiremos nos entender.

Muitas vezes se fala da área A ou da área B, mas é essencial entender, com clareza, onde está a base econômica de Passo Fundo. Essa riqueza passa, evidentemente, pelo agronegócio, pela área da saúde e também pela educação. Esses três setores, somados à indústria metal-mecânica, que está fortemente vinculada ao agro, são os principais geradores de riqueza, os que oferecem os empregos mais qualificados e que impulsionam o mercado imobiliário. Aí entra um quarto setor, que é a construção civil. No entanto, sem os três primeiros, não haveria nem dinamismo comercial nem mobilização no setor da construção.

A primeira questão, portanto, é que precisamos construir um consenso: esses são os setores estratégicos de Passo Fundo.

A segunda questão é que a cidade precisa construir uma narrativa. É necessário contar essa história com coerência. Atualmente, “nos vendemos” muito mal, tanto no âmbito do Rio Grande do Sul quanto no nacional. Quando alguém fala em Passo Fundo, o que vem à mente? Qual é a percepção externa da nossa marca? Qual é a narrativa que estamos construindo para fortalecer uma imagem vinculada a uma estratégia de desenvolvimento?

O terceiro ponto é que os agentes vinculados a esses setores, especialmente agro, saúde e educação, precisam estar mais próximos e desenvolver projetos em comum, o que ainda não acontece com a força necessária. Um exemplo concreto: ainda não existe um parque tecnológico voltado ao agronegócio, construído de forma integrada por todos os atores que poderiam contribuir. Há a iniciativa do TecnoAgro e outras ações pontuais, mas ainda não temos uma estrutura única, abrangente, capaz de transformar Passo Fundo em um grande polo de referência nacional, como é o caso de São José dos Campos, referência em indústria aeroespacial. Lá, existe um parque tecnológico municipal onde atuam a Embraer e sete instituições de ensino em conjunto. Quando se fala em indústria aeroespacial no Brasil, pensa-se em São José dos Campos. O mesmo ocorre com São Paulo quando o tema é biotecnologia.

Se quisermos que Passo Fundo seja referência nacional, e global, em agronegócio, não podemos continuar com cada instituição construindo o seu “parquinho”. Isso não gera escala nem força suficiente para posicionar a cidade no cenário nacional e internacional.

Por isso, afirmo: o terceiro grande desafio, depois de definir as áreas estratégicas e construir uma narrativa sólida, é entender que ações isoladas não têm força para nos tornar um polo de excelência. Nossa única chance é unir esforços , recursos financeiros, inteligência, tempo das lideranças e articulação política, em torno de um projeto comum que coloque Passo Fundo em evidência nacional na área que escolhermos como prioritária.

Falo isso porque realmente acredito nessa visão, e a Atitus trabalha continuamente para que esse processo seja conduzido dessa forma.

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