A importação expressiva de leite em pó de países do Mercosul acirra o debate entre o governo federal e o setor produtivo. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) busca reverter um parecer preliminar do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), que descarta a necessidade de mecanismos provisórios de proteção comercial (antidumping), sob o argumento de que as importações não prejudicam o setor leiteiro nacional. Essa decisão, porém, é provisória, enquanto uma investigação formal, iniciada em dezembro de 2024, ainda está em curso.
O assessor técnico da Comissão Nacional de Bovinocultura de Leite da CNA, Guilherme Dias, afirma que “o setor leiteiro global costuma receber proteção comercial robusta — em alguns países, a tarifa chega a 200% — justamente por ser considerado estratégico”. Segundo ele, a crise do setor brasileiro começou em 2022, e a entidade intensificou sua atuação junto ao Executivo e ao Legislativo para tentar conter os efeitos das importações com preços desleais.
Dados compilados pela CNA indicam que 97% dos lácteos importados pelo Brasil têm origem no Mercosul, dos quais 75% correspondem ao leite em pó — produto que concorre diretamente com o leite fluido produzido por mais de 1 milhão de agricultores brasileiros, 80% deles da agricultura familiar.
No Rio Grande do Sul, o presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês (Gadolando), Marcos Tang, lamenta a ausência de apoio governamental. Ele destaca que, além da concorrência desleal, a proximidade com países fronteiriços e os impactos prolongados de eventos climáticos extremos fragilizam ainda mais os produtores. “Sentimo-nos abandonados; a falta de defesa antidumping representa perda de espaço e competitividade para os produtores brasileiros”, afirmou.



