O Conversa de Valor desta semana recebe Ricardo Fantinelli, gestor do UPF Parque e diretor-presidente do Tecnoagro, para uma conversa sobre inovação, tecnologia e o futuro do agronegócio na região norte do Rio Grande do Sul. Publicitário por formação, especialista em Gestão de Marcas e Design e mestre em Tecnologia e Gestão da Inovação, Ricardo acumula uma trajetória marcada pela criação e consolidação de ecossistemas de desenvolvimento. Antes de assumir o comando do Tecnoagro, foi diretor executivo do Ágora Tech Park, em Joinville (SC), um dos ambientes de inovação que mais cresceram no país nos últimos anos.
Nesta entrevista, Fantinelli fala sobre as principais ações e estratégias implementadas à frente do Tecnoagro, que tem como missão integrar universidade, produtores e empresas em um movimento conjunto de fortalecimento da inovação no campo. Ele também aborda o papel da entidade como ponte entre pesquisa, tecnologia e sustentabilidade, além de revelar as perspectivas que colocam Passo Fundo e a região no caminho para se tornarem um polo de referência nacional em inovação agroindustrial e agroenergética.
Com uma visão clara de futuro, o dirigente destaca que o verdadeiro avanço do agronegócio passa pela colaboração entre conhecimento acadêmico, prática produtiva e empreendedorismo, sempre com foco no impacto social e na valorização das pessoas que fazem o campo evoluir.
ValorPF – Desde que assumiu a presidência da Tecnoagro, quais têm sido as principais ações e estratégias para fortalecer a integração entre universidade, produtores e empresas do agronegócio na região norte do Estado?
Ricardo Fantinelli – (RF) Desde que assumi a presidência da entidade, a nossa maior missão tem sido integrar e gerar valor no agronegócio de forma sustentável, buscando uma aproximação cada vez maior, e principalmente de maneira estruturada e prática, entre universidade, empresa, governo e sociedade civil. Só que, para que isso ocorra, o primeiro grande desafio foi estruturar um time técnico e superqualificado que estivesse alinhado aos nossos objetivos centrais. Nesse sentido, nós não esperamos que a inovação aconteça por acaso. Nós precisamos provocá-la. Então, a nossa estratégia central é a conexão ativa, e, nesse sentido, lançamos algumas iniciativas focadas em três eixos principais. O primeiro deles é a inovação aberta com a academia. Criamos, junto com a UPF e o UPF Parque, o Programa Conexão, que basicamente foi o lançamento de desafios reais das empresas que estão no Tecnoagro, para que a academia pudesse buscar e propor soluções. Essa parceria já é marcada por projetos de alto impacto, como, por exemplo, a Usina Escola de Amônia Verde, que une a pesquisa da UPF, o investimento da indústria e também a demanda do campo por fertilizantes mais sustentáveis. Essa iniciativa envolve milhares de reais e já está em curso para ser instalada nos espaços da universidade, integrando cada vez mais as iniciativas privadas, acadêmicas e públicas.
O segundo eixo atua em um modelo mais voltado ao envolvimento e à capacitação. Estamos investindo em diversos eventos com foco na formação da nova geração, que envolvem o mapeamento de desafios e a proposição de soluções. A exemplo disso, tivemos a realização do Hackathon do Tecnoagro, em parceria com diversas entidades, Sebrae, Prefeitura e Vértice, que reuniu mais de sessenta pessoas e gerou diversas boas ideias de solução para o nosso agro.
O terceiro eixo, não menos importante, busca uma aproximação e um envolvimento mais próximos, de forma estratégica. Estamos realizando encontros e reuniões itinerantes do conselho de associados para aprofundar o conhecimento existente e entender, cada vez mais, e isso é extremamente importante, os desafios e potenciais do agronegócio, desde a conexão até as soluções. Essa iniciativa visa alinhar o posicionamento, a atuação e a viabilidade das ações, além de oferecer apoio estratégico a todos que desejem, sejam associados ou não, trabalhar com projetos de inovação no agronegócio. Cada uma dessas ações é um elo que fortalece, como uma corrente, o nosso ecossistema, ampliando o potencial de geração de tecnologia entre os nossos associados.
ValorPF – Como o senhor enxerga o papel da Tecnoagro na construção de um ecossistema de inovação que una pesquisa, tecnologia e desenvolvimento sustentável no campo?
RF – O Tecnoagro atua como um grande catalisador desse ecossistema de inovação em agronegócio. Ele está alinhado à visão que nós temos em relação ao Centro de Inteligência do Agro, que é um movimento do Estado do Rio Grande do Sul. O nosso papel, primeiramente, é mapear os desafios do setor e, em seguida, buscar uma orquestração quanto a essas soluções.
O Tecnoagro é uma ponte que precisa transformar cada vez mais a pesquisa tecnológica existente e aplicá-la. A exemplo disso, temos um projeto de irrigação subterrânea em parceria com a Prefeitura e com algumas empresas associadas, que não trata apenas de tecnologia, mas também de como otimizar e economizar os nossos recursos. Esse projeto visa otimizar até 60% do uso de água e reduzir em até 70% o uso de nitrogênio, evitando as perdas por volatilização. Isso une, de certa forma, eficiência produtiva e responsabilidade social. É um projeto muito interessante.
Nosso papel se consolida em fortalecer esse movimento de governança e ecossistema. Estamos continuamente trabalhando em uma estratégia para atrair cada vez mais outras entidades e empresas que tenham aderência às linhas de pesquisa da instituição, conectadas diretamente ao Tecnoagro. Nesse sentido, precisamos desenvolver o empreendedorismo e promover uma formação cada vez mais profissional e qualificada, potencializando a geração de tecnologia e o capital intelectual que existe hoje dentro do Tecnoagro e entre os associados.
Obviamente, é preciso entender que todas essas inovações precisam vir acompanhadas de um impacto social. O Tecnoagro tem um compromisso muito firme em focar em projetos de pesquisa e desenvolvimento que também gerem valor direto, não apenas fora da porteira, mas também dentro dela.
Olhando para a agricultura, isso inclui diversas iniciativas que vão desde a busca por editais até o desenvolvimento de produtos e serviços que garantam mais segurança, aumentem a renda e otimizem o tempo de trabalho do produtor. Esse é o papel: garantir que essas inovações e tecnologias não fiquem presas aos laboratórios, mas cheguem ao campo e gerem cada vez mais resultados para a nossa cadeia produtiva.
ValorPF – Quais são as perspectivas e metas de longo prazo da Tecnoagro para consolidar Passo Fundo e a região como um polo de referência nacional em inovação agroindustrial e agroenergética?
RF – Nossa visão de futuro está muito inspirada não apenas nos desafios, mas também na estratégia que temos no Plano de Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul. Esse plano se divide em três horizontes que são bem interessantes.
O primeiro horizonte é consolidar nossa base atual, agregando um valor maior à produção. O que isso significa? Por exemplo, como podemos transformar produtos como o trigo em itens de maior valor agregado e garantir, por exemplo, a qualidade dos grãos com o uso da tecnologia, conectando a iniciativa da usina de amônia à escola, com a tecnologia de amonização, para eliminar micotoxinas, o que permitirá o aproveitamento de produtos que seriam descartados.
O segundo pilar trabalha muito com a ideia de construir uma base para um novo ciclo de negócios, com tecnologias mais disruptivas. A Usina Escola de Amônia Verde e os projetos de bioinsumos desenvolvidos na universidade em parceria com o Tecnoagro são bons exemplos de como estamos criando um ciclo de sustentabilidade que pode ser altamente rentável para o campo.
O terceiro horizonte busca transformar a nossa região e os nossos negócios em referências pioneiras no agronegócio. Isso inclui o desenvolvimento, por exemplo, de etanol de cereais e a pesquisa sobre o uso da amônia como combustível para motores de máquinas agrícolas, contribuindo para a redução da emissão de CO² no campo.
Nossa meta é clara: precisamos transformar a vocação produtiva da nossa região em uma liderança tecnológica para o Brasil. Mas, para que isso floresça, o nosso maior investimento é nas pessoas. Acreditamos que o futuro se constrói unindo a sabedoria e a experiência de quem já está no campo com a energia e as novas competências das gerações que estão chegando. Nesse sentido, estamos trabalhando para que essa nova geração tenha as ferramentas para inovar junto com as gerações mais experientes, o que chamamos de um legado de competitividade e desenvolvimento para toda a nossa região.



